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Blowing in the Wind

In Vida on August 13, 2010 by gabrielfn Tagged: , ,

Outro dia, num dos meus passeios ciclísticos, tive um insight. Daqueles que surgem quando menos se espera para nos ensinar alguma coisa. Ao virar na rua Vergueiro, uma corrente de vento frio bateu no meu corpo. De imediato, veio à minha mente uma pergunta: de onde estaria vindo aquele vento? A rua Vergueiro segue para o sul. O sul, em relação a São Paulo, é o oceano. Santos está a apenas 50 quilômetros. Aquele vento só poderia estar vindo do mar! Uma espécie de consciência do planeta como um imenso sistema veio à tona. Normalmente, o mar e a cidade nos parecem realidades separadas uma da outra.

Essa percepção, tão rara para quem vive cercado pelo concreto da cidade, é algo pueril para alguém cuja vida é guiada por uma relação com as forças e os sinais da natureza, como os nossos ancestrais. Cada vez mais nossa relação com o planeta está mediada por recursos tecnológicos, como internet, GPS, televisão. Nossa percepção é, portanto, formada pelos meios que nos transmitem informações textuais e numéricas a respeito do ambiente e nunca diretamente. De vez em quando, conseguimos abrir nossa mente para uma comunicação direta com os eventos naturais, como aconteceu comigo durante a pedalada.

A cidade, enquanto uma facilitadora da comunicação entre as pessoas, acaba dificultando a relação direta com a natureza. Por uma necessidade de previsão dos acontecimentos, decorrente do esforço de controle da natureza, como meio para a proteção contra eventos naturais destrutivos e para a utilização da mesma em prol da economia, o ser humano codificou os padrões da natureza em signos numéricos e textuais, para que pudessem assim ser facilmente manipulados.

É claro que isso tudo cria uma falsa percepção de controle sobre a natureza. Quando por alguns momentos dialogamos diretamente com o planeta, tomamos consciência da fragilidade da nossa presença por aqui e da grandeza de tudo que nos cerca. Quando tive esse insight, ele veio acompanhado de uma sensação de felicidade e uma percepção de unidade de todas as coisas. Em nossas vidas de estilhaços programados, uma percepção como essa é um antídoto eficaz contra os males que rondam o cotidiano dos habitantes das cidades.

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Praia de paulista

In Vida on August 2, 2010 by gabrielfn Tagged: , , , , ,

São Paulo é uma cidade muito criticada, não só por seus habitantes, mas também por aqueles que não moram nela. Principalmente os cariocas. Certa vez, disse Vinicius que o problema de São Paulo seria que se anda, anda e nunca se chega a Ipanema. Quem vive em São Paulo se descabela com o trânsito, com a falta de contato com a natureza, com a quase ausência de opções gratuitas de lazer. Realmente, São Paulo é ótima para quem tem dinheiro e para quem gosta de estar perto do poder, perdendo, quem sabe, para Brasília nesse quesito. Eu, particularmente, sou apaixonado pelo Rio de Janeiro e, como paulistano, nunca ousaria querer duelar com a cidade maravilhosa em relação a sua plasticidade e beleza, além da incrível integração cidade e natureza.

Há algumas semanas, comecei a pedalar e o primeiro passeio foi pela nova ciclovia, ainda incompleta, que, por enquanto, inclui a área do Rio Pinheiros próxima à Faria Lima, indo dar lá perto do autódromo de Interlagos. São, por enquanto, 14 km de extensão. Foi um passeio e tanto. No caminho, cruzei com capivaras, estruturas estranhas no meio do Rio, estações interessantes de trem, algumas favelas, prédios de negócios muito modernos. Passei por debaixo da polêmica Ponte Estaiada. O interessante desse passeio é que, andando de bicicleta, adquiri uma percepção muito distinta do espaço urbano. A verdade é que a cidade fica muito mais exótica e misteriosa. Se não há uma beleza óbvia nesse cenário, pelo menos uma beleza subentendida por detrás das formas com que deparamos.

Admito que senti muito orgulho de viver em São Paulo após pedalar. O único inconveniente é o mau cheiro que às vezes desponta no ar e a dificuldade de acesso, já que temos que carregar as bicicletas na mão e utilizar uma passarela para chegar à ciclovia. Mas vi um potencial muito interessante nessa idéia: se fossem feitas as obras necessárias e se o Rio fosse finalmente despoluído, poderíamos por fim concordar com os cariocas e admitir o que tanto dizem: sim, a praia de paulista é o Tietê!

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Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos

In Música on July 26, 2010 by gabrielfn Tagged: , , ,

Nunca dei grande atenção ao Otto. Eu o via como uma figura completamente alucinada, mas não como um grande artista. Isso mudou na semana passada, quando um amigo me mostrou o último álbum do compositor pernambucano: Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos.

O disco tem como um de seus méritos agregar elementos contemporâneos em sua produção a uma emoção sincera e visceral, somando a isso uma pitada brega proposital, que casa muito bem com o sentimento do disco: a dor da ruptura amorosa. Claramente, o trabalho de Otto na composição dessas canções foi o de transmutação de seu sofrimento em algo concreto e o resultado foi a sublimação da dor. O álbum consegue unir uma construção artística muito bem resolvida com uma sinceridade e intensidade que o fazem especial.

Apesar do grande trabalho de produção do disco, que ajudou a criar sua unidade, o grande mérito é de Otto. Ele entregou inteiramente a esse trabalho, como é possível ouvir na interpretação incontida de suas canções. Sua voz expressa sentimento intenso, principalmente nas músicas mais densas do disco: Crua, Seis Minutos, Lágrimas Negras, Filha e Agora Sim. Essas são pra mim o núcleo do álbum. As outras faixas contribuem como passagens na trama emocional do álbum, que, por sua coesão, pode ser traduzido facilmente em um roteiro de filme ou num romance.

O mais interessante nesse trabalho é que ele é fruto do fim da relação de seis anos de Otto com Alessandra Negrini. Sem Alessandra, não existiria. Nesse sentido, Otto, que teve muitas vezes sua vida exposta superficialmente nas revistas de fofoca, ao lado de Alessandra, abriu finalmente seu coração e escancarou sua vida de uma maneira crua, sincera e muito corajosa. Não é fácil traduzir a dor subjetiva, individual e extremamente pessoal em música e, dessa forma, diluir sua própria dor entre a massa de indivíduos que escutam Crua na novela das oito. Por isso merece o título de artista: conseguiu transformar seus sentimentos em algo que está muito acima do egoísmo dos desejos não realizados. E isso é arte!

Por esse disco, Otto entrou para mim na categoria de grandes da música popular brasileira e, a partir de agora, esperarei ávido para ouvir seus novos trabalhos.

Álbum completo para ouvir

Crua:

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Eruditos e eruditas

In Música on July 19, 2010 by gabrielfn Tagged: , , , , , , , , , , , , , ,

Nesse fim de semana, trabalhei na organização de um evento de música erudita contemporânea. Foi uma oportunidade interessante de ver bons músicos tocando composições de nosso século e entender um pouco melhor o que é isso que chamam de música contemporânea. Além do mais, é sempre bom agregar novas referências a meu universo musical, como forma de enriquecer meu trabalho de compositor – no caso de música popular.

Durante o evento pensei bastante sobre a história da música ocidental, para conseguir entender algumas das obras que estavam sendo tocadas. A evolução do modalismo para a tonalidade, em consonância com o estabelecimento de padrões formais fixos, chegou a seu ápice em Mozart, no período chamada de clássico. Posteriormente, com Beethoven, iniciou-se uma dissolução das formas musicais estabelecidas, porém, se manteve o apego à tonalidade. Os modernistas buscaram nos modos gregos e em escalas exóticas, novos ingredientes para sua música, a exemplo de Debussy. O impacto dos horrores da guerra no pensamento chegam também à música: o atonalismo e o dodecafonismo aparecem como radicalização do racionalismo na música.

Enfim, a música ocidental erudita segue um padrão metamusical, segundo o qual os compositores participam de uma evolução que é interna à lógica dessa música. É uma música que é e foi se tornando cada vez mais racional. Apesar de ter gostado muito de várias das composições que foram tocadas, especialmente algumas canções que se aproximavam mais da música popular, boa parte da obras não me cativaram, dentre as quais as experiências filosófico-musicais de John Cage.

De todo o mosaico de músicas que escutei, pude captar um padrão: a dissolução de trechos reconhecíveis pelos sentidos imediatamente após o reconhecimento. É uma música que parece estar constantemente se desfazendo, fugindo como um sabonete molhado sempre que conseguimos agarrá-la. É fragmentada, como nosso mundo. A música popular tornou-se fragmentada de um modo geral, se dividindo em estilos cada vez mais múltiplos. A música erudita assimilou a fragmentação dentro das próprias obras. Mas, ao afastar-se demais do coração, acaba por perder também o contato com o grande público.

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Noel, Caetano, Cartola

In Música on July 13, 2010 by gabrielfn Tagged: , , , , , ,

Na semana passada, duas pessoas queridas vieram me falar sobre uma análise que Caetano Veloso havia feito sobre a música Feitiço da Vila, de Noel Rosa, por meio da qual Caetano afirmava que era uma canção racista. Fiquei curioso, já que está entre minhas músicas preferidas de Noel. Tentei então ler a letra com outros olhos e a presença de trechos como “A Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém” ou “Tendo o nome de princesa, transformou o samba num feitiço descente que prende a gente”, realmente valorizam a caráter mais aristocrático da Vila Isabel, em contraste com o universo do malandro pobre e da cultura afro-brasileira do candomblé. É preciso também inserir a música no contexto da disputa entre Noel e Wilson Batista, um sambista negro, mais voltado à valorização da cultura do malandro de navalha.

Fui atrás do vídeo no youtube e tenho que dizer que, de certo modo, concordo com a análise de Caetano, exceto quando ele afirma ser uma música racista. Ela chega a resvalar no racismo, quando faz referência depreciativa à temática do candomblé. Porém, o objetivo de Noel era celebrar a Vila Isabel, usando para isso os recursos poéticos que fizessem sentido naquele momento. Noel Rosa não quis de forma alguma valorizar a raça branca em relação à negra. A questão é: de que outra forma poderia Noel exaltar a Vila, a não ser enaltecendo aquilo que ela tinha de diferencial em relação a outros bairros? Quais são as vantagens que a Vila teria sobre os outros bairros e as outras escolas?

Noel foi novamente genial ao criar um clássico. Por ser uma grande canção, abriu possibilidades para análises como a do Caetano, que enriquecem ainda mais nossa relação com essa música. De todo modo, tenho uma opinião pessoal que me faz preferir uma letra como essa:

Sala De Recepção
(Cartola)

Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que todos cobre
Como podes, Mangueira, cantar?
Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada
Silenciosa ouve as nossas canções
Tem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho de ser os primeiros campeões

Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a sua posição

Minha Mangueira da sala de recepção
Aqui se abraça o inimigo
Como se fosse um irmão

Em Sala de Recepção, Cartola não divide. Ele une, mostrando o poder da sua simplicidade e pureza.

Caetano analisando a letra de Feitiço da Vila

Cartola e Dona Zica, em Sala de Recepção:

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Aqui estamos nós

In Vida on July 5, 2010 by gabrielfn Tagged:

Como se dá a gênese de nós mesmos? Como explicar nossos sentimentos e atitudes, tão distintos em cada um, diante das coisas do mundo? Boa parte deve ser genética. Nascemos com certas predisposições e características que vêm do útero, que herdamos daqueles de quem descendemos. Porém, isso está longe de explicar tudo. Quando observados de perto, dois gêmeos idênticos apresentam respostas diante das situações que são muito distintas e até mesmo suas fisionomias deixam de ser idênticas. Isso mostra que, apesar de terem cargas genéticas iguais, há algo que vai muito além e que forma sua personalidade.

Certa vez, um homem passou por uma crise que afetou todos os setores de sua vida. Sua mulher o abandonara; sua vida profissional foi severamente minada; se viu isolado de seus familiares. A queda foi tão grande que sua saúde foi prejudicada. Após meses de desequilíbrio, desespero e tristeza, ele decidiu construir uma casa em um terreno que tinha no campo. O homem participou de todo o processo de construção: projetou a casa, contratou os ajudantes, escolheu material, participou da obra. Enfim, pôs em pé uma casa que foi fruto de sua mente e de seu trabalho e, no final do processo, aquele homem que havia desmoronado, deu lugar a um homem refeito.

Isso talvez seja uma resposta à pergunta que iniciou o texto. Em primeiro lugar, nós estamos sempre em constante construção e reconstrução. A gênese, o início, está circunscrita ao corpo e à mente. O espírito se alimenta do processo. Ele não tem começo e não tem fim. Em segundo lugar, está claro que somos frutos de nossas realizações no mundo físico e material. É isso que dá sentido para a vida. Essas realizações não precisam ser em forma de matéria, mas também de arte, de escrita, de amor, de transmissão de conhecimento, entre muitas outras formas de realizarmos nós mesmo nessa vida. Talvez o importante seja encontrarmos nosso lugar no mundo e no momento em que estamos inseridos.

E o motor de nossas realizações é o sofrimento. É ele que nos transforma, nos lapida e gera a constante destruição e construção de todas as coisas. Isso me parece ser a lei da natureza, à qual estamos presos e tentamos constantemente transcender, seja consciente ou inconscientemente.