Outro dia, num dos meus passeios ciclísticos, tive um insight. Daqueles que surgem quando menos se espera para nos ensinar alguma coisa. Ao virar na rua Vergueiro, uma corrente de vento frio bateu no meu corpo. De imediato, veio à minha mente uma pergunta: de onde estaria vindo aquele vento? A rua Vergueiro segue para o sul. O sul, em relação a São Paulo, é o oceano. Santos está a apenas 50 quilômetros. Aquele vento só poderia estar vindo do mar! Uma espécie de consciência do planeta como um imenso sistema veio à tona. Normalmente, o mar e a cidade nos parecem realidades separadas uma da outra.
Essa percepção, tão rara para quem vive cercado pelo concreto da cidade, é algo pueril para alguém cuja vida é guiada por uma relação com as forças e os sinais da natureza, como os nossos ancestrais. Cada vez mais nossa relação com o planeta está mediada por recursos tecnológicos, como internet, GPS, televisão. Nossa percepção é, portanto, formada pelos meios que nos transmitem informações textuais e numéricas a respeito do ambiente e nunca diretamente. De vez em quando, conseguimos abrir nossa mente para uma comunicação direta com os eventos naturais, como aconteceu comigo durante a pedalada.
A cidade, enquanto uma facilitadora da comunicação entre as pessoas, acaba dificultando a relação direta com a natureza. Por uma necessidade de previsão dos acontecimentos, decorrente do esforço de controle da natureza, como meio para a proteção contra eventos naturais destrutivos e para a utilização da mesma em prol da economia, o ser humano codificou os padrões da natureza em signos numéricos e textuais, para que pudessem assim ser facilmente manipulados.
É claro que isso tudo cria uma falsa percepção de controle sobre a natureza. Quando por alguns momentos dialogamos diretamente com o planeta, tomamos consciência da fragilidade da nossa presença por aqui e da grandeza de tudo que nos cerca. Quando tive esse insight, ele veio acompanhado de uma sensação de felicidade e uma percepção de unidade de todas as coisas. Em nossas vidas de estilhaços programados, uma percepção como essa é um antídoto eficaz contra os males que rondam o cotidiano dos habitantes das cidades.









